A CONQUISTA DA LIBERDADE

A CONQUISTA DA LIBERDADE

A Construção da autonomia começa cedo e exige equilibrar o ímpeto natural de proteger as crianças e o incentivo para que se tornem independentes
Laura Purvinni

O que você faria se o seu filho, aos 9 anos, pedisse para voltar pra casa sozinho? A jornalista americana Lenore Skenazy deu ao filho um mapa do metrô, um cartão de embarque, uma nota de 20 dólares e algumas moedas, para o caso de precisar de um telefone público. E confiscou o celular. “Não queria que ele o perdesse”, explicou em uma coluna publicada no site do jornal The New York Sun, em abril de 2008. “Metade das pessoas q quem contei o episódio queria me denunciar por abuso infantil. Como se manter as crianças trancadas, com capacetes, telefones celulares e babás fosse a maneira certa de ajuda-los”, escreveu gerando polêmica sem precedentes. Em tempo: o garoto chegou em casa são e salvo.
Hoje, Lenore é apresentadora do docureality World’s Worst Mom (“A pior mãe do mundo”, em tradução livre), exibido no canal Discovery Life, nos Estados Unidos (leia a entrevista na página 35). Ali, ela enfrenta mães que hesitam em dar liberdade aos filhos, como o caso da mulher que não deixava o menino comer com talheres sozinho – ele tinha 10 anos. Ela ainda lidera o movimento Free Range Kids, que inspira os pais a dar mais autonomia ás crianças. A jornalista argumenta que tanta superproteção nos primeiros resulta em adultos inseguros. “Os serviços de atendimento psicológico das universidades americanas estão sobrecarregados. Os jovens adultos não sabem lidar com a ansiedade.” Problemas simples, como um desentendimento com um colega de quarto ou uma nota baixa, ganham enorme dimensão em meninos e meninas que sempre tiveram intervenção dos pais para lidar com as frustações.
Acompanhe. Mas à distância

O termômetro para entender qual é o momento certo de deixar a criança agir por si está nela mesma. A autonomia é algo que se desenvolve, em um longo processo de erros e acertos. Além de ter atingido determinada fase do desenvolvimento, ela precisa se sentir autorizada a seguir em frente. “O papel dos pais é ajudar o filho a descobrir o que poderiam fazer diferente para dar certo na próxima vez”, diz a psicoterapeuta familiar Natércia Tiba Machado. Em outras palavras, é importante acompanhar de perto e fazer o pequeno acreditar que capaz de realizar determinada tarefa. E entender que, para tanto, terá de insistir e praticar.

Há duas armadilhas que boicotam o desenvolvimento dos filhos. A primeira delas é a comodidade. Ajudar a desenvolver a autonomia dá trabalho. Ensinar a amarrar os sapatos, por exemplo, leva mais tempo e exige mais paciência do que fazer a tarefa pela criança. A professora Ana Lucia Ravagni, mãe da Rafaela de, 4 anos, relata casos de crianças que, aos 6 ou 7 anos, não conseguem vestir o próprio casaco. Ou mesmo descascar uma banana. “Sempre há um adulto por perto para resolver. ” Em casa ela procura incentivar a filha a se trocar ou comer sozinha. Mas, na hora da pressa, dá uma forcinha. Ao caminhar na calçada, por exemplo, deixa a menina andar sem dar as mãos. “Desde que fique ao meu lado. Não dá pra soltar a rédea de vez, tem que ser aos poucos. ”

A outra cilada é o medo. Os pais enviam mensagens de que o mundo é ameaçador. E de que seus filhos não serão capazes de enfrentá-lo. A resposta a esse comportamento está em crianças que demoram muito mais pra falar, caminhar e até mesmo interagir com outras pessoas. “Superproteger gera efeitos contrários aos que desejamos: constrangimento, insegurança, timidez e limitação do rendimento escolar”, observa Rosângela Hasegawa, pedagoga e diretora do Evolve Berçário e Colégio Infantil.

Por outro lado, não é bom colocar a criança diante das circunstâncias com as quais ela ainda não consegue lidar. Em situação inversa, quando a criança é cobrada além de sua capacidade e se depara com fracassos frequentes, sofrerá os mesmíssimos efeitos da superproteção: insegurança e frustação.

Da porta para fora
Incentivar a independência também é algo cultural. No Japão e em alguns países europeus, é comum ver as crianças circulando sozinhas. A Comunidade está pronta a acolher e oferecer auxílio a elas, se necessário. Nos Estados Unidos e aqui no Brasil, os filhos são orientados a não falar com estranhos, porque podem ser perigosos. (O que coloca os pequenos em situação de risco em uma posição extremamente vulnerável, já que, para eles, qualquer desconhecido representa uma ameaça e não terá a intenção de ajuda-los.) Além disso, a presença dos pais ou de um responsável é obrigatória, pela lei.
Nos Estados Unidos, dependendo do estado, a idade-limite para que o menor seja considerado incapaz varia de 8 a 14 anos. No Brasil, até os 16 anos, crianças e adolescentes são considerados absolutamente inaptos. “Dependendo das circunstâncias, os pais podem ser penalizados pelo crime de maus-tratos, com pena de seis meses a três anos de detenção”, explica o advogado Thalles Rocha Calzolari Tostes Lopes.

No entanto, entre as famílias brasileiras, a companhia frequente dos adultos é bastante desigual. Enquanto nas classes mais favorecidas prevalece a figura da babá na ausência dos pais, não é incomum nas periferias das grandes cidades que irmãos mais velhos cuidem dos mais novos. Muitos vão sozinhos à escola. O projeto Ônibus a Pé, da ONG Criança Segura, tem voluntários que supervisionam grupos de crianças a partir dos 3 anos no caminho para o colégio. O objetivo é evitar acidentes.

Confiar é preciso
O designer Luciano Schinke, pai de Antonio, 5, tenta ampliar os limites sempre que possível. “Quando estamos no playground, procuro manter distância, pra ele se enturmar. Faço o máximo pra ele esquecer que estou ali. Só aceno se vejo que ele está me procurando”, conta. Por outro lado, não teria coragem de deixar o filho ir à escola sozinho. “ Comecei a ir para a escola q pé quando era bem pequeno. Mas não deixaria meu filho andar sozinho pela cidade. ”
A coragem de deixar as crianças enfrentarem as ruas é retratada com graça no vídeo Caminhando com Tim Tim (http://migre.me/quk5d), produzido pelo cineasta Tiago Expinho. Valentim, seu filho, à época com 1 ano e 4 meses, vai até a casa da avó – mas sem dar as mãos para a mãe, Genifer Gerhardt, que é professora de teatro. Ela praticamente não interfere no passeio da criança. O bebê interage com os adultos que encontra pelo caminho e para espontaneamente na hora de atravessar a rua, esperando ajuda. O segredo para ter tanta coragem, diz Genifer, é confiar. “Sobrecarregamos as crianças de nãos. É preciso vigiar sempre, cuidar sempre. Mas acreditar que são capazes também. ” Não por acaso, a palavra educar vem do verbo latino edueducare: literalmente “conduzir para fora, preparar para o mundo”.

Revista Claudia

CapaClaudiaFilhos

Nenhum Comentário

Deixe um Comentário

Rua Clementine Brenne, 385 | Morumbi – São Paulo / SP – CEP:05659-000 | contato@colegioevolve.com.br
Telefones: (11) 3502-7100 – (11) 99990-5440